Cerco de Trump contra regime Maduro indica preparação para 'intervenção militar' dos EUA na Venezuela, diz analista
30/08/2025
(Foto: Reprodução) EUA divulgam imagens de embarcações enviadas para a costa da Venezuela
O governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, enviou navios de guerra, um submarino e aviões espiões para perto da costa da Venezuela. Oficialmente, autoridades norte-americanas alegam que se trata de uma operação contra o tráfico de drogas. Por outro lado, especialistas afirmam que o aparato militar sugere uma possível intervenção contra o regime de Nicolás Maduro.
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▶️ Contexto: A movimentação militar começou a ser noticiada pela imprensa americana no dia 16 de agosto. Desde então, o governo dos EUA tem se negado a comentar detalhes da operação.
Pelo menos sete navios foram enviados para o sul do Caribe, incluindo um esquadrão anfíbio, além de 4.500 militares e um submarino nuclear. Aviões espiões P-8 também sobrevoaram a região, em águas internacionais.
A operação se apoia no argumento de que Maduro é líder do suposto Cartel de los Soles, classificado pelos EUA como organização terrorista.
Os EUA consideram o presidente venezuelano um fugitivo da Justiça e oferecem recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à prisão dele.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, se recusou a comentar objetivos militares, mas disse que o governo Trump vai usar "toda a força" contra Maduro.
O site Axios revelou que Trump pediu um "menu de opções" sobre a Venezuela. Autoridades ouvidas pela imprensa americana não descartam uma invasão no futuro. Veja detalhes mais abaixo.
Enquanto isso, Caracas vem classificando a movimentação como uma “ameaça” e mobilizando militares e milicianos para se defender de um possível ataque.
🔍 De acordo com a agência Reuters, analistas avaliam que a frota enviada ao sul do Caribe é desproporcional para uma simples ação contra o tráfico. Um esquadrão anfíbio, por exemplo, poderia ser usado para uma invasão terrestre.
Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo IUPERJ e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, avalia que, em um primeiro momento, uma invasão terrestre pode ser inviável, mas um bombardeio é possível.
“É uma situação muito semelhante àquela do Irã, alguns meses atrás. O volume de recursos militares que os Estados Unidos transferiram para o Oriente Médio naquela ocasião, e agora para o Caribe, são indicações de que eles estão falando sério”, disse.
“Não é simplesmente um blefe. Há preparação para algum tipo de intervenção militar.”
Nesta reportagem você também vai ver:
O que está por trás da operação
Maduro pode cair?
A reação venezuelana
O que está por trás da operação
Donald Trump, presidente dos EUA, e Nicolás Maduro, líder do chavismo na Venezuela
Kevin Lamarque e Manaure Quintero/Reuters
Os Estados Unidos afirmam que a operação pretende bloquear a entrada de drogas no país. No entanto, o Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 da ONU aponta que as principais substâncias consumidas pelos americanos não vêm da Venezuela.
Santoro avalia que, de fato, o crime organizado é uma preocupação do governo Trump. Desde o início do mandato, o presidente tem colocado cartéis de tráfico de drogas na mira, principalmente do México e da Venezuela.
Por outro lado, Trump tem usado a estratégia de classificar essas organizações estrangeiras como terroristas para poder empregar as Forças Armadas em ações contra crimes comuns.
“Tentar ligar o tráfico de drogas ao terrorismo é a maneira que ele tem de poder envolver os militares. Isso reforça também a mensagem central do governo dele, de que a imigração latino-americana é um problema econômico e até mesmo de segurança nacional”, diz.
Além disso, o professor elenca outros dois fatores que podem estar por trás da manobra de Trump: o petróleo venezuelano e a influência da Rússia e da China na região.
🛢️Petróleo: Dados do Relatório Mundial de Energia de 2025 indicam que a Venezuela continua sendo o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, com 302,3 bilhões de barris. Os Estados Unidos aparecem em 9º lugar no ranking, enquanto o Brasil ocupa a 15ª posição.
Em 2023, antes de ser reeleito, Trump disse que, se tivesse vencido as eleições de 2020, teria aproveitado a crise na Venezuela para “tomar” o país e pegar “todo aquele petróleo”.
🫵 Influência: A Venezuela mantém proximidade com a China e a Rússia. Esses dois países reconheceram a vitória de Maduro nas eleições presidenciais de 2024, apesar de o pleito ter sido fortemente questionado por grande parte da comunidade internacional.
“Uma eventual intervenção americana na Venezuela seria também uma mensagem política para a China e para a Rússia, dizendo: ‘Não se metam por aqui. A América Latina não é um lugar para vocês’”, afirma Santoro.
O Irã também é um forte aliado da Venezuela e parabenizou Maduro pela reeleição no ano passado.
"A Venezuela, nesse sentido, é a tempestade perfeita do ponto de vista retórico, porque junta todos esses fatores para ter grande aceitação nos EUA. Tem a questão do petróleo, tem a questão da China e da Rússia e tem a questão do crime organizado."
Perfil da Venezuela
Bruna Azevedo/g1
Maduro pode cair?
Na sexta-feira (29), com base em fontes da Casa Branca, o site Axios revelou que os conselheiros mais próximos de Trump ainda não têm certeza se a atual operação militar no Caribe visa provocar uma mudança de regime na Venezuela.
Segundo a reportagem, Trump pediu um “menu de opções” e ainda deve tomar uma decisão. As fontes negaram descartar uma invasão, mas consideram que, no momento, ela é improvável.
O Axios diz que uma das hipóteses em discussão seria um ataque aéreo contra instalações ligadas à produção de cocaína ou a cartéis. Outra possibilidade mencionada é o uso de drones contra o próprio Maduro — considerada menos plausível por ora.
Em um provável ataque dos EUA, Santoro avalia que a capacidade defensiva da Venezuela seria muito limitada. O arsenal militar venezuelano é defasado e pequeno em comparação ao poderio americano. Veja a seguir.
Poderio militar da Venezuela.
Gui Sousa/Equipe de arte g1
Para Santoro, a alternativa provável de ataque dos EUA seria uma combinação de bombardeios com mísseis contra instalações militares e, até mesmo, contra a infraestrutura petrolífera.
"Também existe a possibilidade de ações de forças especiais para capturar autoridades venezuelanas."
Segundo o professor, a reação a um bombardeio seria “muito forte” em toda a América Latina. Ele avalia que grandes países da região, como Brasil, México e Colômbia, tenderiam a apoiar a defesa da soberania venezuelana, mesmo que seus governos tenham reservas em relação a Maduro.
Ao mesmo tempo, a operação poderia expor divisões na região. Alguns países declararam apoio à classificação do Cartel de los Soles como organização terrorista: Argentina, Equador, Paraguai e Guiana seguiram os Estados Unidos nesse posicionamento. Trinidad e Tobago, que fica muito próxima da Venezuela, também afirmou apoiar a ação militar americana.
Internamente, Santoro considera que o regime de Maduro poderia sair enfraquecido caso os EUA provocassem danos econômicos graves que levassem o país a uma nova crise.
“Seria visto como um governo que fracassou em sua tarefa mais básica: defender a pátria e a soberania”, afirma Santoro.
Reação venezuelana
Maduro aparece fardado durante visita a tropas em 28 de agosto de 2025
Palácio Miraflores
Diante da presença militar dos EUA no Caribe, o governo venezuelano enviou uma carta à ONU pedindo ajuda. No documento, Maduro classificou a ofensiva como “ameaça gravíssima” e solicitou que a organização pressione Washington a respeitar a soberania da Venezuela.
“A humanidade e esta organização não podem permitir que, em pleno século XXI, ressurjam políticas de força que ponham em risco a paz e a segurança internacional”, diz o texto.
A carta foi enviada ao secretário-geral da ONU, António Guterres, na quarta-feira (27). As Nações Unidas ainda não se pronunciaram sobre o assunto.
Em meio às tensões, Maduro também apareceu vestindo uma farda militar durante visita a tropas. Ele afirmou que o país está “mais preparado para defender a paz, a soberania e a integridade territorial” diante do que chamou de “guerra psicológica” dos EUA.
Na semana passada, o venezuelano já havia anunciado a mobilização de 4,5 milhões de milicianos para proteger o país. O governo também enviou 15 mil militares para a fronteira com a Colômbia.
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